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Padrão de Resposta
O tradicional e recorrente ciclo entre afastamento e aproximação da política externa
do Brasil em relação a seus vizinhos sul-americanos apresenta, atualmente, padrão de
estabilização favorável à definição da América do Sul como espaço prioritário da diplomacia
brasileira muito em função de nova perspectiva de integração a partir de visão tanto idealista
kantiana (identidade cultural e história comum de exploração que aproximaria as nações),
como realidade periférica (reconhecimento da necessidade de integração para potencializar
ação do subcontinente na agenda internacional).
Entretanto, para se chegar a essa nova abordagem, processo longo, de certa forma
“esquizofrênico”, e, muitas vezes, pouco claro, teve que ser enfrentado. Da aproximação de
caráter militarista (Pacto ABC, do início do século XX, passando pelo TIAR em 1947 e até
por uma proposta de aliança militar no Atlântico Sul, cogitada durante os gabinetes militares
brasileiro e argentino do final da década de 1970), a aproximação do subcontinente assume
natureza eminentemente econômica, conforme se depreende dos tratados de Montevidéu de
1960 (ALALC) e de 1980 (ALADI). Esse processo apresenta, ainda, alguma conexão com a
idéia de integração de toda América Latina, em clara oposição à hegemonia estadunidense –
padrão esse, todavia, que não se consolida ante à polarização do México e dos Estados
centro-americanos à potência do norte. Ainda concomitante a esse processo, a aproximação
sul-americana ocorre de forma fragmentada, por meio do Pacto Andino, de 1969, que evoluiu
para a Comunidade Andina de Nações, 1989; do Tratado da Bacia do Prata, 1969; do
Tratado de Cooperação Amazônica, 1978, e do Tratado de Assunção, em 1991, que lançou os
alicerces do MERCOSUL, a partir das negociações iniciadas nos governos Sarney e Alfonsín,
desde 1985 – Ata de Foz do Iguaçu, PICE, Tratado de Integração, Cooperação e
Desenvolvimento – o que possibilitou o pano de fundo para o aprofundamento das relações
no Cone Sul. O governo Itamar Franco, por exemplo, já defendia a integração (econômica)
da América do Sul, por meio da ALCSA (1992).
Um primeiro marco da integração efetiva da América do Sul se deu com a Cúpula de
Brasília (2000), que lançou a idéia de integração subcontinental a partir dos blocos
MERCOSUL e CAN (Comunidade Andina) – implicando a conformação, em 2004, da
Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA) durante a Conferência de Cuzco (em alusão à
sede do grande império sul-americano à época dos descobrimentos). Medidas como a
integração dos membros da CAN na condição de membros associados do MERCOSUL
evidenciam a disposição dos blocos em promover relações mais estreitas, novamente
iniciadas sob ηégide do interesse econômico.
Não se pode negar que a busca de novos mercados e da melhoria do padrão de vida
dos cidadãos sul-americanos faz parte do discurso favorável a uma nova integração. O
reconhecimento, pelas chancelarias sul-americanas, do papel periférico do subcontinente na
arena internacional (realismo periférico) incentiva a integração como forma de se
potencializar o poder de barganha do novo ator internacional. Da mesma forma, o
reconhecimento dos laços culturais e de passado colonial comuns reforça a associação
(idealismo kantiano) objetivando a emancipação da identidade comum sul-americana –
perspectiva essa, inclusive, mais ousada que o hispano-americanismo de Simón Bolívar, que
pouco reconhecia na América Lusitana identidade com seus vizinhos. Desse modo, a
necessidade de inserção de peso no “uni-multipolarismo” (Samuel Huntington), pós-Guerra
Fria e pós-atentados de 11 de Setembro, aproxima e favorece o reconhecimento, por parte do
Brasil, do novo papel estratégico de seu entorno.
Todavia, inúmeros desafios despontam quanto à busca dessa nova integração.
Do ponto de vista externo à América do Sul, pode se identificar pré-disposição dos
Estados Unidos em minar a integração sul-americana. Muito além de questões ideológicas ou
culturais, a potência hemisférica deseja manter sua hegemonia continental, consolidada
parcialmente com a polarização da América Central a seus ditames. Por meio da ALCA, os
Estados Unidos tendem a potencializar sua hegemonia econômica em detrimento do
MERCOSUL e da CAN. Em relação a esta, tendo em vista o endurecimento do MERCOSUL,
durante as últimas conferências hemisféricas (Mar del Plata, 2005), quanto à agenda de
negociação da ALCA, os Estados Unidos vêm adotando tática de promoção de acordos
bilaterais de comércio, em avançadas negociações com o Peru e já assinado com a Colômbia
(pelo que a diplomacia brasileira deve buscar igual tratamento comercial acordado entre o
Estado andino e os Estados Unidos, invocando Acordos de Complementação Econômica,
assinados por ocasião do Tratado da ALADI).
Não bastasse a aproximação dos Estados Unidos, em termos bilaterais, às nações sulamericanas (o Uruguai, por exemplo, vem sendo constantemente assediado), problemas
internos e intra-regionais ameaçam o concerto subcontinental. O populismo de Hugo Chávez
na Venezuela, o nacionalismo equivocado de Evo Morales na Bolívia e as recentes rusgas
diplomáticas Venezuela-Colômbia (quanto à extradição de narcotraficantes) e VenezuelaPeru (oposição aberta de Chávez ao candidato Alan García) demonstram que a América do
Sul ainda tem muito a caminhar para uma integração, a qual, ainda que não se dê nos moldes
daquela da União Européia, possa favorecer a todos seus membros e consolidar o
subcontinente como agente relevante na arena internacional. E cabe ao Brasil, não apenas
pelo gigantismo natural, consolidar, via diplomacia, sua hegemonia na região de forma ideal
e realista.