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Padrão de Resposta
As conferências de cúpula constituem um instrumento utilizado para conferir solidez e
visibilidade às estratégias de política externa dos países. A implicação direta dos chefes de
Estado em negociações de política externa projeta as decisões tomadas nessas conferências
sobre uma esfera muito maior, isto é, atraindo não somente a atenção da comunidade
internacional como também visando a mobilização das populações internas em torno dos
temas debatidos.
No Brasil, essa estratégia vem sendo muito utilizada, particularmente desde os
governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e durante a gestão Lula. Muitos
definem a diplomacia da era Fernando Henrique como « diplomacia presidencial », sendo
esse um governo em que o presidente assumiu muitas vezes as rédeas dos processos de
negociação concernentes à política externa, tendo suas principais ações nesse campo
emanado de cúpulas de chefes de Estado. Assim, ηera Fernando Henrique foi marcada por
muitas cúpulas, especialmente no que diz respeito à política para a América do Sul. O
exemplo mais notório foi a cúpula de Brasília realizada em 2000, em que se solidificou o
projeto da Alcsa, área de livre comércio entre doze países da América do Sul e em que se
assinou o projeto da IIIRSA, para a integração infra-estrutural do continente. As cúpulas das
Américas também foram eventos importantes daquele período da história brasileira,
sobretudo porque a reunião de 94 entre os chefes de Estado americanos resultou na
assinatura do compromisso da Alca.
No governo Lula, a prática da diplomacia de cúpulas também foi especialmente
acionada, utilizando abundantemente a imagem política do presidente, como líder de
esquerda, representante das classes trabalhadoras que jamais haviam chegado ao poder no
Brasil e arauto de uma nova ordem mundial pacífica, igualitária e democrática. A presença
de Lula em reuniões de cúpula foi muito freqüente. Entre as mais notórias esteve a sua
participação como convidado na cúpula do G-8 em Evian, na qual Lula reivindicou maior
voz aos países emergentes. No âmbito americano, as reuniões de cúpula mais importantes
foram a Interamericana, em que o Brasil, ao lado de outros países do continente, bloqueou a
proposta americana de instituir um mecanismo dentro da OEA que permitisse à organização
interferir politicamente nos seus membros em casos de ruptura democrática, e a cúpula das
Américas, cuja quarta edição realizou-se em Mar del Plata, expondo dificuldades para a
evolução do projeto da Alca, com a resistência de vários líderes sul-americanos. Também tem
importância a reunião de cúpula que lançou a CASA, tentativa de alavancar o projeto de
integração entre o Mercosul e a Comunidade dos Países Andinos.
A importância estratégica para o Brasil dessa diplomacia de cúpula está na
visibilidade interna e externa que ela proporciona à política externa. Isso é importante sob
dois ângulos. Sob o ângulo externo, essa visibilidade é estratégica porque o projeto
diplomático brasileiro consiste justamente na criação de uma situação de independência e de
maior poder de negociação para o Brasil. Portanto, é importante que as ações diplomáticas
sejam visíveis para o mundo e para a América Latina, base a partir da qual o Brasil projeta
alavancar sua liderança. Sob o ângulo interno, essa visibilidade é importante porque a
diplomacia brasileira, longe de ser um acessório no projeto de desenvolvimento brasileiro, é
parte crucial dele, procurando viabilizar o comércio externo e a proteção geopolítica de
recursos naturais, territoriais e humanos. Assim, é preciso que a população esteja próxima a
esses esforços diplomáticos, para lhes conferir legitimidade, porque, ao contrário de serem
uma movimentação burocrática e arbitrária, consistem numa tentativa de orientar o
desenvolvimento econômico do país.
Uma última questão que pesa para se avaliar a importância dessa diplomacia é o
poder que a implicação dos chefes de Estado sobre algumas questões tem para dirimir
controvérsias menores e investir as negociações de importância política superior. Assim, a
implicação dos presidentes pode ajudar a reduzir resistências pontuais e viabilizar acordos,
submetendo divergências técnicas ao desejo político de estabelecer um determinado
compromisso.