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Padrão de Resposta
O Governo Lula da Silva representou a acentuação do que Amado Cervo conceituou
como Estado Logístico: o governo, nos moldes do que fazem os países centrais, ouve o
empresariado e suas demandas, buscando fortalecer o núcleo robusto da economia e, com
isso, permitir a internacionalização dos negócios das companhias nacionais, sempre com o
apoio logístico do Estado. Não se trata, pois, de volta à era do Estado Empresário, mas de
superação do Estado Normal, responsável que foi pela venda do patrimônio nacional e por
uma inserção dita moderna, mas marcada pelo signo da dependência.
Nesse sentido, nos últimos anos, tem-se observado uma significativa expansão dos
negócios de empresas brasileiras pelo globo, em especial em nosso entorno geográfico, a
América do Sul. O capital brasileiro tem, de fato, empreendido investimentos contínuos na
aquisição de empresas e no desenvolvimento de novos negócios no espaço sul-americano, o
que, à parte refletir uma nova concepção do próprio papel do Estado Nacional no
relacionamento econômico, traz para nossa política externa alguns desafios.
De fato, a atuação de empresas brasileiras tem contribuído para a crescente
dinamização de algumas economias da região. A atuação da Petrobras na Bolívia – ainda
que recentemente marcada por alguns impasses e desafios – teve papel crucial como
geradora de empregos e indutora do desenvolvimento daquele país andino. A Petrobras tem
ainda atuação marcante na Venezuela, onde, em parceria com a estatal PDVSA, é
responsável pela exploração de campos na Bacia do Orinoco e no âmbito do grande projeto
de exploração de gás Mariscal Sucre. A compra de ativos da Shell marcou a entrada da
estatal brasileira no mercado paraguaio e uruguaio, além da intensificação de sua presença
na Colômbia, onde já possuía refinarias. Em 2001, a aquisição do Grupo Perez-Companc, na
Argentina, determina o ingresso da Petrobras naquele país, onde hoje possui uma atuação
fortalecida e pujante, sendo uma das principais marcas daquela nação platina. Também no
campo dos serviços, as empresas brasileiras têm tido reconhecida atuação, destacando-se,
nesse caso, a área bancária, sendo emblemática a atuação do Itaú na Argentina e a recente
compra, pelo referido banco paulista, dos ativos do Banco de Boston, não só no Brasil, mas
também no Chile e no Uruguai. A atuação de grandes empreiteiras brasileiras, como a
Andrade Gutierrez, é igualmente exemplo de excelência brasileira em serviços. A
multinacionalização de empresas brasileiras completa-se, ainda, com importantes iniciativas
na área industrial, destacando-se a área de bebidas, com relevante atuação da INBEV na
Argentina e no Peru, entre outras iniciativas.
A presença de tantos projetos liderados por capitais brasileiros, além de contribuir de
maneira decisiva para o desenvolvimento das economias locais, acaba por resvalar para
acusações, por parte de alguns segmentos das sociedades envolvidas, de atuação
subimperialista do Brasil, o que, porém, não encontra maior respaldo nos dados que surgem
daálise da presença de empresas brasileiras no espaço sul-americano. Se alguns conflitos
e divergências pontuais existem – e isto é natural no relacionamento entre atores tão
complexos como o Estado e as grandes corporações empresariais – o balanço final é
positivo, seja para as sociedades que recebem o investimento, seja para o Brasil, que passa a
receber lucros, pagamento de royalties e tem uma oportunidade para a expansão de suas
exportações, na medida em que a instalação de multinacionais brasileiras no exterior é feita
muitas vezes com base na larga importação de insumos por parte das subsidiárias locais
desde a matriz no Brasil.
As multinacionais de origem brasileira revelam, assim, uma verdadeira capacidade de
liderança do país, ao mesmo tempo que consubstanciam uma integração de cadeias
produtivas, fortalecendo os laços e as próprias bases da integração regional. Essa atuação
corresponde, pois, à posição do governo brasileiro de que a integração do espaço sulamericano não deve estar fundada apenas em aspectos políticos, mas também em aspectos
econômicos. Entende-se, assim, que o desenvolvimento de economias locais, auspiciado por
iniciativas, sejam eminentemente públicas ou privadas, do Brasil, contribuiria para a
complementaridade entre as economias regionais, fortalecendo, em termos macro, o processo
associativo em curso.
A grande atuação de corporações de origem brasileira no espaço sul-americano gera
desafios também para nossa diplomacia e para nossa política exterior de uma maneira geral.
Com efeito, essa atuação surge como uma nova condicionante do relacionamento brasileiro
com os países do seu entorno, a qual até recentemente existia em escala reduzida. O Estado
passa, assim, a ter o papel de verdadeiro mediador, junto aos governos locais, das empresas
que se internacionalizam, na medida em que essas corporações traduzem, na maioria dos
casos, perspectivas e interesses que têm relação direta com o próprio desenvolvimento
nacional.
Ademais dessa postura de mediação, a política externa brasileira passa a incluir,
ainda, iniciativas de financiamentos de empreendimentos no exterior, o que vai ao encontro
de interesses e demandas das grandes multinacionais brasileiras, numa relação simbiótica
profícua e benéfica para o país como um todo. Exemplo disso é o financiamento, promovido
pelo BNDES, para a construção do metrô de Caracas, obra que conta com a participação de
empreiteiras de capital brasileiro.
Além da mediação – seja para a entrada de empresas, seja para a solução de conflitos
– e do financiamento de projetos no exterior como políticas de governo no âmbito do
relacionamento externo do país, as próprias diretrizes gerais da política externa brasileira
passam a ser influenciadas por essa nova realidade de presença de empresas brasileiras em
outras economias, sobretudo sul-americanas. Em suas negociações multilaterais, o Brasil
passa a levar em conta que, mais do que um simples exportador, é agora um investidor, o que
implica buscar, nessas negociações, mecanismos que efetivem proteção e resguardo a tais
investimentos.
Assim, a presença de empresas multinacionais brasileiras no exterior, especialmente
na América do Sul, é realidade alimentada pela própria concepção de Estado que atualmente
se desenvolve, mas, ao mesmo tempo, cria novos condicionamentos e variáveis para a
formatação de nossa política exterior. Cria, ainda, novas condições para as próprias
empresas que se lançam a empreendimentos fora de nossas fronteiras, demandando uma
atuação firme do governo brasileiro na resposta a seus anseios, sempre em uma perspectiva
de busca do desenvolvimento nacional.