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Padrão de Resposta
A queda do Muro de Berlim deu ensejo a interpretações que julgavam inexoráveis a
supremacia de alguns preceitos ligados ao liberalismo e à democracia, como a ideia de “fim
da história” de Francis Fukuyama, e ao reforço dos Estados Unidos como única
superpotência mundial, configurando-se um mundo eminentemente unipolar. Atualmente,
alguns desses preceitos vêm sendo contestados pela realidade, conforme a crise econômica
mundial enfraquece a defesa plena do neoliberalismo e traz oportunidade para o reforço do
multilateralismo, reflexo institucional de um mundo crescentemente multipolar.
Elemento claro de multipolaridade no mundo atual é a ascensão dos países
emergentes ao protagonismo nas decisões mundiais, logrando fortalecer a agenda dos países
em desenvolvimento perante aquela dos países desenvolvidos. Talvez o primeiro sinal dessa
ascensão tenha sido a formação do G-20 no âmbito da OMC, articulado com o objetivo claro
de redução das assimetrias em nível internacional, logrando elevar a discussão sobre
agricultura ao cerne das negociações da Rodada Doha. Confirmação dessa ascensão,
entretanto, é o reconhecimento do G-20 financeiro como foro privilegiado de discussão e
deliberação acerca das ações para combater a crise e regular a economia mundial,
agregando um número muito maior de países do ocorria anteriormente no G-8, que,
entretanto, ainda existe.
A formação de blocos regionais de integração, como a União Europeia, o Mercosul, a
SACU e a SADC (no continente africano) e a ASEAN (no sudeste asiático) demonstra
iniciativas locais em prol da multipolarização do mundo, progressivamente organizado em
torno de grupos de articulação para atuação concertada em âmbito internacional. Isso se
reforça com a crescente articulação entre os blocos, como atestam as negociações entre
Mercosul e União Europeia, bem como os acordos de comércio preferencial Mercosul-SACU
e Mercosul-Índia, da mesma forma que as articulações políticas entre alguns dos principais
países emergentes, como o fórum IBAS (entre Índia, Brasil e África do Sul) e a crescente
coordenação dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). Tudo isso leva à percepção da
necessidade de reforma dos principais foros de decisão mundial, como o Conselho de
Segurança da ONU e as instituições de Bretton Woods, incapazes de acompanhar de forma
ágil esse processo de multipolarização mundial.
Entretanto, os foros multilaterais de decisão, que devem ser reforçados em prol da
nova ordem multipolar, ainda não são capazes de eliminar elementos de unipolaridade no
sistema internacional. Um exemplo é a existência de cotas de participação no FMI, em
número tão grande sob posse dos Estados Unidos que se confere a esse país poder informal
de veto nas decisões do Fundo. Da mesma forma, o Conselho de Segurança ainda não tem
plena capacidade de evitar que decisões unilaterais levem a conflitos, como atestam a
invasão norte-americana ao Iraque, em 2003, e a invasão russa à Geórgia no ano passado,
em apoio a regiões separatistas.
Atos unilaterais também são percebidos no mundo em desenvolvimento, como o
recente teste nuclear por parte da Coreia do Norte, apesar das pressões da comunidade
internacional; da mesma forma, podem ser elencados os massacres cometidos pelo Sudão na
região do Darfur, em flagrante desrespeito ao Direito Internacional e aos Direitos Humanos.
Entretanto, é dentre os países em desenvolvimento que se percebem alguns dos principais
esforços em prol do reforço do multilateralismo, para a consolidação de um mundo
multipolar.
Parte importante desses esforços diz respeito ao Brasil. Ciente de sua crescente
importância no cenário internacional, tem o país buscado articular-se com os principais
países emergentes do mundo em prol da democratização do sistema internacional, atentando
também à sua crescente responsabilidade com relação aos destinos de países mais pobres,
justificando-se sua atitude de não-indiferença. Da mesma forma, as articulações no âmbito
americano lideradas pelo Brasil lograram tamanho êxito a ponto de enfraquecer o poder de
decisão de agenda da principal potência, os EUA, quanto aos destinos do hemisfério, como
atesta o recente cancelamento da suspensão de Cuba na OEA.
Dessa forma, a disputa entre uma ordem unipolar, liderada pelos EUA, e uma
multipolar, em que prevalece o reforço das instâncias multilaterais de decisão, tem-se
encaminhado, apesar de alguns vestígios de unipolaridade, em direção à segunda, com
importante perspectiva de redução das assimetrias de poder em âmbito internacional.