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Padrão de Resposta
O relacionamento Brasil-Argentina é ponto fundamental da política externa brasileira
em diversos âmbitos: bilateral, regional e multilateral. A aproximação entre os dois países,
engendrada a partir de entendimentos na área nuclear que se estenderam a diversos outros
âmbitos, compreende atualmente várias áreas de atuação, em uma aliança estratégica que
corrobora a dimensão Sul-Sul da política externa do Brasil, com evidente capacidade de
superação de eventuais desafios.
A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China e
dos Estados Unidos. A acentuação da vertente comercial entre os dois países foi
impulsionada pela criação do MERCOSUL, em 1991, e a capacidade de superação de
alguns desentendimentos (como a crise do Real de 1999 e a crise argentina de 2001) foi
fundamental para a expansão do comércio bilateral. Os superávits comerciais brasileiros (de
cerca de quatro bilhões de dólares em 2010) por vezes levam ao protecionismo argentino,
como nos desacordos acerca da exportação de produtos da linha branca ou na suspensão
das licenças automáticas de importação pela Argentina, em 2009. O governo brasileiro,
entretanto, tem respondido com iniciativas de apoio, como os entendimentos acerca do
Mecanismo de Adaptação Competitiva. O Brasil reconhece a importância do comércio com a
Argentina, o que permite a superação de desafios protecionistas com uma postura
conciliatória e propositiva.
O mercado argentino enquadra-se, também, como peça fundamental na estratégia
de internacionalização de empresas brasileiras, como a Natura, que expande a linha de
cosméticos para o país vizinho. A Petrobras tem investimentos na Argentina, grande
produtora de petróleo e gás. A indústria de bebidas belgo-brasileira AB InBev tem ganhado
projeção no mercado local, com a compra de empresas como a cervejaria Quilmes. O Banco
Itaú também tem investido no país, ganhando espaço no setor bancário-financeiro. A
inserção de empresas brasileiras no mercado argentino é, portanto, notória, revelando a
importância do relacionamento bilateral para sua internacionalização.
A escolha da Argentina como a primeira visita presidencial de Dilma Rousseff revela
a importância do país vizinho para a política externa brasileira no contexto da “autonomia
pela diversificação”. Como ficou evidente na apreciação conjunta de diversos temas, Brasil e
Argentina compartilham visões de mundo em amplas áreas, de segurança a tecnologia e
inovação. Em anos recentes, a agenda bilateral diversificou-se e ampliou seu campo de
atuação. Como demonstrado desde o início do governo Lula, com instrumentos como o
Consenso de Buenos Aires (2003) e a Ata de Copacabana (2004), Brasil e Argentina
reconhecem a necessidade de promoção do desenvolvimento em bases equitativas e
reiteram a “aliança estratégica” firmada em 1997, por Fernando Henrique Cardoso e Carlos
Menem. O desenvolvimento, como fundamento básico para a promoção da paz e da
segurança internacionais, tem pautado a ação de Brasil e Argentina em diversos âmbitos.
Na América do Sul, Brasil e Argentina são grandes entusiastas da integração e da
cooperação para o desenvolvimento, como demonstram suas ações no MERCOSUL e na
UNASUL. Iniciativas como o FOCEM e o Conselho de Defesa Sul-Americano reiteram o
compromisso de ambos os países com o desenvolvimento e com a segurança da região. No
âmbito latino-americano, os dois países participam da MINUSTAH com contribuições
militares e assistenciais, como exemplo da convicção de que segurança e desenvolvimento
caminham juntos. Na Organização das Nações Unidas, Brasil e Argentina também
compartilham interesses comuns, a despeito da reticência argentina em ratificar o pleito
brasileiro a um assento permanente no Conselho de Segurança. Nas instituições financeiras
internacionais, os dois países defendem a reforma das instituições de Bretton Woods, como
fundamento para maior democratização, legitimidade e eficácia dos foros. A cooperação é,
portanto, prezada por ambos os países.
O relacionamento Brasil-Argentina em anos recentes, que abrange temas variados
como cooperação tecnológico-científica (COBEN, Sabia-mar, reator multipropósito, Centro
Binacional de Nanotecnologia), infraestrutura (pontes sobre o rio Uruguai, hidrelétrica
binacional de Garabi e integração viária) e militar (veículo “gaúcho”, reator nuclear para
submarinos), demonstra a amplitude e a importância da relação. A despeito de eventuais
desafios, a parceria é, indubitavelmente, essencial para os dois países.