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Padrão de Resposta
Ao longo das últimas décadas, uma série de mudanças sistêmicas e particulares a
determinados países fizeram com que a ordem internacional cambiasse de uma lógica
bipolar (Guerra Fria) e um breve período unipolar (pós-queda da URSS) para uma lógica
crescentemente multipolar. O surgimento de novos atores de peso no cenário internacional
torna-se cada vez mais incompatível com o arcabouço institucional criado após o término da
2ª Guerra Mundial. É nesse contexto que se situa o pleito desses novos atores de peso por
uma democratização dos foros internacionais. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que
haverá forças de resistência em relação a essas demandas, forças que serão exercidas por
parte dos atores que detêm maior protagonismo e poder dentro dessas instituições.
No que concerne às mudanças estruturais que levaram ao surgimento de nações
com maiores recursos de poder e à formação de uma ordem mais multipolar, a questão
pode ser analisada sob dois prismas. Primeiramente, deve-se destacar a maturidade
atingida por atores como Índia e Brasil, que se tornaram democracias sólidas e estáveis do
ponto de vista político e econômico. A experiência chinesa certamente é a mais
impressionante, impulsionada pelo reformismo de Deng Xiaoping. Por outro lado, houve
uma alteração sistêmica importante, que se aliou à ascensão desses países para engendrar
a multipolaridade. A Rússia, que permaneceu paralisada após a desastrosa transição para
economia de mercado, retomou seu protagonismo. Ademais, a multipolaridade aventada
para o pós Guerra Fria não se materializou, e houve um declínio de poder norte-americano.
É importante salientar que esse declínio deve ser relativizado. A economia dos EUA ainda é
três vezes maior do que a chinesa e o poder militar do país permanece absolutamente
inconteste, levando alguns analistas a falar em uma unimultipolaridade, uma ordem
multipolar que, sob muitos aspectos, permaneceria sob a égide norte-americana.
Como principais atores dessa nova ordem multipolar podem ser citados, ao lado das
três nações supracitadas (Brasil, Índia e China) e da Rússia revigorada, a África do Sul e a
Indonésia, de modo que não é coincidência o fato de que esses atores estão presentes nos
acrônimos de quase todas as alianças de geometria variável das quais participa, de modo
engajado, a diplomacia brasileira, como o BASIC, o BRICS e o IBAS.
Nos âmbitos financeiro e comercial, os principais mecanismos de coordenação dos
quais participam esses atores são, respectively, o G20 Financeiro e o G20 da OMC,
formado por ocasião das negociações da paralisada Rodada de Doha do Desenvolvimento.
Numa análise sobre a esfera comercial e sobre os eventuais pontos de divergência
entre os países em desenvolvimento e destes em relação aos EUA, cabe, primeiramente,
tecer alguns comentários sobre o atual estágio das negociações. Detratores da política
externa brasileira defendem que o impasse nas negociações atesta que os investimentos
feitos no G20 não renderam frutos, todavia, cabe destacar que diante de sucessivas
rodadas em que somente os interesses dos países desenvolvidos foram contemplados, a
paralisia pode ser entendida como progresso. O acordado no âmbito da OMC foi que
chegara o momento de contemplar os interesses dos países em desenvolvimento. A
Rodada deveria negociar agricultura e seria benéfica ao desenvolvimento, conforme atesta
seu nome: Rodada de Doha do Desenvolvimento. É a defesa desse compromisso que o
G20 coerentemente advoga. No seio do G20 da OMC, há divergências devido ao fato de
que a China e, particularmente, a Índia mostram maiores resistências em relação à extensão
da liberalização agrícola. Isso acontece devido a particularidades desses dois países,
principalmente no que tange aos seus contingentes demográficos e sua agricultura, que, em
vastos espaços dos interiores dessas nações, carece de densidade técnica. Esses países
temem que uma desarticulação dos seus setores agrícolas resulte em êxodo maciço rumo
aos já superpovoados centros urbanos. No que concerne às divergências com os EUA, os
membros do G20 sustentam que os norte-americanos devem reduzir seus subsídios
agrícolas sem que sejam exigidas tantas contrapartidas em NAMA, conforme foi acordado
previamente em umas das rodadas da OMC que antecederam Doha, por meio da chamada
negociação mandatada.
Na esfera financeira, pode-se dizer que há um consenso maior não somente no que
concerne à coesão dos membros do G20F que são países em desenvolvimento, mas
também quanto à relação dos mesmos com os EUA. A própria situação de protagonismo a
que foi alçado o G20F, em detrimento do G8+1, atesta que a concertação política dos
emergentes surtiu efeitos. Alia-se a isso o compromisso assumido de reforma das
instituições de Bretton Woods (BM e FMI), com aumento das quotas-parte para os
emergentes. Como ponto de discórdia, pode ser destacada a questão cambial. Entre os
emergentes, devido à competitividade que o yuan desvalorizado confere à economia
chinesa, e entre estes e os EUA, em relação ao excesso de liquidez que os pacotes
anticíclicos norte-americanos despejaram no mundo. Muitos desses dólares buscam a
estabilidade brasileira, causando apreciação cambial e críticas da Presidente Rousseff sobre
um tsunami monetário que minaria a competitividade e capacidade exportadora do Brasil.
Em relação às iniciativas sul-sul promovidas por muitos dos novos atores
emergentes, cabe destacar que elas não são novidade, conforme atesta a existência de
iniciativas anteriores como o MNA ou o G77, no entanto, as iniciativas atuais contêm uma
característica nova e marcante. Ao contrário do disposto no excerto da obra de Patrick
Stuart, países como o Brasil demonstram, de modo inequívoco, que estão dispostos a
assumir o papel de stakeholders globais responsáveis, assumindo responsabilidades
crescentes ante a ordem internacional contemporânea. Contrastando com a postura mais
demandante e reativa do passado, o Brasil e outros atores em ascensão dão mostras claras
de que contribuirão com o seu quinhão no que concerne à construção de uma ordem global
mais justa, equilibrada e menos assimétrica. Essa nova ordem será construída de modo
concertado com os países desenvolvidos, por meio de contribuições concretas e não
somente retórica reivindicatória. No caso do Brasil, a lógica supracitada se aplica em
inúmeros âmbitos, como demonstram a Minustah (segurança e desenvolvimento), os
aportes financeiros junto ao FMI e o Fundo IBAS para redução da fome e da pobreza.