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Padrão de Resposta
A ascensão chinesa observada ao longo das últimas décadas representa e suscita
importantes oportunidades e desafios para a política externa brasileira. No que concerne às
oportunidades, é importante que o Brasil perceba sob que aspectos pode haver
convergência entre os pleitos de ambos os países no contexto de uma ordem internacional
crescentemente multipolar, de modo que a diplomacia brasileira possa ver serem
reforçadas, por esse ator essencial, muitas das suas reivindicações no plano externo. Como
maior desafio, reside o fato de que a China se desloca cada vez mais para um eixo
assimétrico de poder em relação ao Brasil, fato que pode reduzir a congruência entre a
política externa e os interesses nacionais de cada um dos países, ao mesmo tempo em que
compromete a posição negociadora do Brasil.
Quanto à crescente assimetria supracitada, cabe salientar que ela decorre do
fenômeno absolutamente sem precedentes na era industrial de crescimento de quase 10%
a.a. vivenciado pela China ao longo de três décadas. Nesse período, particularmente nas
últimas duas décadas, o Brasil vivenciou avanços notáveis e atingiu estabilidade política e
macroeconômica, além de ter implementado um programa de reformismo social muito bemsucedido, todavia, o fenômeno de crescimento chinês aumentou, e segue aumentando, a
assimetria de recursos de poder à disposição de ambos os países.
No âmbito comercial e financeiro, residem grandes desafios para a relação bilateral,
como a disputa e concorrência chinesa em terceiros mercados, notadamente África e
América do Sul em relação a bens manufaturados que o Brasil tradicionalmente exportava
para essas regiões. Outro problema é a predominância significativa de primários na pauta
exportadora para a China (soja e minério), ao passo que o Brasil importa cada vez mais
manufaturados, à medida que o parque industrial chinês se moderniza e se torna cada vez
mais competitivo.
Cabe destacar, todavia, que é também nesse âmbito que residem muitas das
sinergias entre os dois países. A China é o maior parceiro comercial do Brasil e a
manutenção das suas importações e do superávit comercial em favor do Brasil permitiriam
que se atenuassem os efeitos da crise mundial contemporânea. No âmbito financeiro, a
China compartilha o pleito brasileiro por uma reforma do arcabouço institucional dos
organismos de Bretton Woods que democratize o processo decisório nesses foros, tendo
prestado contribuição decisiva para o triunfo do compromisso assumido de reforma do BM e
do FMI.
No contexto do regime internacional de mudanças climáticas e reforma do CSNU,
também existem convergências e divergências entre ambos os países. No âmbito da
segurança, a China já afirmou que considera legítimas as aspirações do Brasil a um assento
permanente, todavia, em matéria tão sensível é recorrente que prevaleçam abordagens
absolutamente realistas, e é notório que não é do interesse chinês a presença de atores
como a Índia e o Japão como membros permanentes, países que, juntamente com o Brasil
e a Alemanha, compõem o G4, grupo de nações que aspiram à condição de membros
permanentes. No que concerne à agenda relacionada ao regime de mudanças climáticas, a
convergência prevalece, limitando-se as divergências a questões de fundo. A articulação
bilateral em que ambos se comprometeram a doar fundos ao PNUMA e aos PMDRs no
contexto da Rio+20 e o BASIC são prova disso, além da defesa do princípio das
responsabilidades comuns, porém, diferenciadas.
O contínuo deslocamento da China para um eixo de poder assimétrico em relação ao
Brasil, à medida que Beijing se aproxima de Washington na escala de poder mundial,
significa que o Brasil deve investir em medidas que dotem sua política externa em relação a
esse país de maior operacionalidade e racionalidade, de modo a atenuar eventuais
prejuízos em sua posição negociadora e reforçar a capacidade de perceber eventuais
oportunidades. Isso significa investir em quadros técnicos para atuarem na China, aumentar
o conhecimento sobre o país e sua cultura diplomática e investir na infraestrutura e
qualidade das representações brasileiras naquele país.