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Padrão de Resposta
A política africana brasileira teve sua evolução estritamente atrelada a variáveis tanto
internas quanto sistêmicas. Nesse sentido, ainda na década de 1950, o antigo chanceler
Osvaldo Aranha já exortava, por meio de correspondência, o governo Juscelino Kubitschek
a acompanhar o processo de descolonização que estava em curso naquele continente. Na
década seguinte, a Política Externa Independente (PEI) anunciou que apoiaria o processo
de descolonização, contudo as poucas iniciativas que redundaram dessa nova diretriz de
política externa ficaram limitadas a declarações retóricas que pouco se converteram em
aspectos práticos. Em termos sistêmicos, a França governada por Charles de Gaulle decidiu
promover a descolonização com mais intensidade, na medida em que as guerras de
libertação nacional em suas colônias drenavam muitos recursos; porém o governo de
Portugal, chefiado por Antonio de Oliveira Salazar, mantinha postura firme no sentido de
continuar a controlar suas possessões ultramarinas. Para o Brasil, restava uma contradição:
ainda que João Augusto de Araújo Castro tivesse proferido o célebre discurso dos 3Ds
(desarmamento, desenvolvimento e descolonização), as nações europeias continuavam a
render melhores resultados econômicos e financeiros que as nações da África, de modo
que o Brasil se abstinha em resoluções aprovadas pela Assembleia Geral das Nações
Unidas (AGNU), a despeito das visitas realizadas por representantes dos Estados africanos
independentes, em que o apoio do Brasil era solicitado.
Gradualmente, o Brasil passou a rever sua postura em relação ao continente
africano, mas segundo uma lógica de avanços e recuos. No governo de Castelo Branco, a
África (notadamente a África do Sul) começou a ser percebida como mercado consumidor
importante, em uma conjuntura interna de promoção das exportações de produtos
manufaturados. Sem embargo, devido a essa postura mais focada na intensificação do
comércio e não relutante em realizar comércio com a África do Sul em plena vigência do
apartheid, alguns países africanos já independentes e representantes de movimentos de
libertação nacional passaram a demonstrar relativa resistência ao Brasil, mormente na
África portuguesa.
Durante a década de 1970, o Brasil tentou aproximar-se mais da África, todavia
resistiu (no governo de Emílio Garrastazu Médici) a declarar seu apoio às independências
dos países africanos colonizados por Portugal. Segundo o então chanceler Mário Gibson
Barboza, era possível convencer Lisboa a revisar e acabar com seu colonialismo na África
sem confrontar o regime salazarista diretamente na ONU. Essa ambiguidade era refletida
na imagem brasileira dentre os países africanos, principalmente porque o Brasil hesitava em
condenar a África do Sul.
Somente quando do governo de Ernesto Geisel a política africana brasileira
adquiriu contornos políticos condizentes com seus objetivos em termos de interesse
nacional. Ao assumir o posto de chanceler, Azeredo da Silveira decidiu imprimir o peso
político do Brasil em favor da independência da África portuguesa. Em âmbito multilateral,
o Brasil voltou favoravelmente à resolução da AGNU aprovada em 1975 que condenava
tanto o apartheid quanto o sionismo como formas de racismo, com vistas a melhorar sua
imagem diante dos países africanos. Ademais, a fim de participar mais ativamente das
negociações acerca da libertação de Angola, o Brasil criou uma representação especial
nesse país. Com efeito, quando da independência declarada, o Brasil reconheceu Angola
sob um governo de socialista liderado pelo Movimento para a Libertação de Angola
(MPLA), o qual controlava a região mais rica em petróleo, produto desejado pelo Brasil em
época de escassez energética. Apesar dos progressos imediatos com Angola, o Brasil
demoraria um pouco mais para obter a simpatia do governo de Moçambique.