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Padrão de Resposta
O candidato não concorda com a opinião de Joaquim Nabuco. É certo que o Japão, em virtude de
seu desenvolvimento econômico e militar, durante a Era Meiji, conseguiu estabelecer-se como uma nova
potência, junto dos Estados Unidos, na virada do século XIX para o XX, relativizando a centralização do poder
mundial no continente europeu. No entanto, a grandeza de um país não precisa advir, necessariamente,
de seus recursos materiais, sejam militares ou econômicos. O exercício da diplomacia e do poder brando
– estratégia utilizada pelo Brasil – pode levar um país a figurar entre os grandes.
De acordo com a perspectiva construtivista das relações internacionais, as identidades dos Estados
resultam de um processo coconstitutivo de interações mútuas. Alexander Wendt, em seu ensaio “A anarquia
é o que os Estados fazem dela”, alude a um jogo de fumaça e espelhos. O Estado que se posiciona de
maneira belicosa contribui para que as identidades relativas dos países com os quais ele interage sejam
definidas pela rivalidade, fazendo que a anarquia internacional seja de uma competição Hobbeseana. Por
outro lado, um Estado que sinalize ser confiável, cooperativo e pacífico pode conformar identidades mais
benignas, em uma anarquia internacional marcada por uma positiva competição Lockeana. Segunda
essa ótica, portanto, o erro de Joaquim Nabuco está em ignorar os efeitos constitutivos do discurso e das
ações estatais na arena internacional. Não basta ser grande; é necessário, também, trabalhar para que
a comunidade internacional reconheça essa grandeza e nutra as expectativas adequadas em relação ao
país em questão, de modo a configurar identidades que sejam benéficas a sua inserção internacional e
ao bem-estar global.
Nesse diapasão, é possível identificar diversas ferramentas através das quais um país pode “ser grande”
ou “mostrar-se grande”, de acordo com os termos de Joaquim Nabuco. O teor dessa “grandeza”, contudo,
depende da natureza da ferramenta utilizada. Nesse sentido, é possível destacar que o desenvolvimento
de capacidades militares sofisticadas ainda é uma forma pela qual um país pode ser grande, muito
embora o ordenamento internacional hodierno, fundado na Carta da ONU (1945), restrinja sobremaneira
as hipóteses de uso da força. O status de potência do qual goza a Rússia, por exemplo, é condicionado,
em boa medida, pela força e sofisticação de seus recursos militares, que incluem o maior arsenal nuclear
do mundo. Nesse sentido, embora a economia russa seja, atualmente, relativamente débil, dependente da
exploração de recursos energéticos, suas capacidades militares – que se relacionam, ainda, a sua posição
de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU – permitem que a Rússia se posicione como
um dos maiores players globais, no que diz respeito a seu poder de contribuir para a configuração das
relações internacionais.
Outra das ferramentas que um país pode utilizar para sagrar-se enquanto “grande”, por sua vez, é
o desenvolvimento de suas capacidades econômicas. Nesse sentido, cabe destacar o mesmo exemplo
mencionado por Nabuco: o Japão. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão desproveu-se de suas
capacidades militares e levou a cabo um intenso processo de crescimento econômico respaldado pelo
desenvolvimento tecnológico. As capacidades que o Japão construiu desde a metade do século passado
até os dias de hoje garantem seu status enquanto uma das nações com poder decisivo na determinação
dos destinos do mundo, mesmo que seus recursos militares sejam relativamente modestos¹ e que o país
não seja membro permanente do CSNU. O mesmo pode ser dito da Alemanha – um exemplo concreto de
sua relevância enquanto player internacional é o fato de Berlim ter integrado as negociações que deram
origem ao Acordo de Viena (2015), com o Irã, junto dos membros permanentes do CSNU, no formato P5 +1.
Por fim, um Estado pode atingir a grandeza mediante suas capacidades diplomáticas e de exercício
do poder brando – nesse caso, o “mostrar ser grande”, nos termos de Nabuco, não se dá em oposição
ao “ser grande”, mas é, efetivamente, um fator constitutivo da grandeza. Nesse sentido, o Brasil serve de
exemplo. O uso da diplomacia para a consecução de seus objetivos externo é uma característica histórica
da estratégia de inserção internacional brasileira. Rubens Ricupero fala que, desde o Império, o Brasil
persegue seus objetivos externos fazendo uso da “diplomacia do conhecimento”. O saber geográfico,
histórico e jurídico, somado a uma sofisticada capacidade negociadora, permitiu, por exemplo, que o
país, na chancelaria do Barão do Rio Branco, conseguisse resolver todos seus litígios fronteiriços de
forma pacífica. O Brasil, hoje, não tem questões fronteiriças pendentes; caso tivesse feito uso do recurso
militar para resolver seus litígios, é possível que houvesse contestações, por parte dos vizinhos, como
se verifica em diversos outros países, como a Índia e a China. A construção histórica de uma imagem
externa positiva, definida pelo respeito ao direito e pela cooperação, permite que o Brasil seja aceito, pela
comunidade internacional, como um ator legítimo, como voz para defender seus interesses em diversos
foros. A participação brasileira no BRICS, por exemplo, permite que o país trabalhe pela conformação de
uma arquitetura financeira internacional mais equânime e que melhor atenda a seus interesses; sua atuação
na Coalização de Alta Ambição contribuiu para que o Acordo de Paris (2015) contivesse o compromisso de
manter o aquecimento global “bem abaixo” dos 2ºC, em 2100; seu engajamento nas discussões relativas
ao desarmamento nuclear contribuiu para a assinatura do “Ban Treaty”, em 2017.
Há várias formas através das quais um Estado pode atingir a grandeza, bem como há diversos
tipos de grandeza. O Brasil, nesse sentido, é um Estado “grande”, e o modo pelo qual o país persegue
seus objetivos externos – através da diplomacia – coaduna-se com princípios de cooperação e justiça,
como os estabelecidos na Carta da ONU.