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Padrão de Resposta
O atentado às torres gêmeas do World Trate Center no dia 11 de setembro de 2001 inaugurava não
só um novo modus operandi do terrorismo internacional, mas também uma era de novas abordagens na
luta antiterrorismo. O terrorismo, outrora geográfica e hierarquicamente coesos, como no caso do IRA ou
do ETA, passa a se organizar por meio de redes transnacionais de comando difuso. Nesse contexto, as
guerras tradicionais, territorializadas, perdem a eficácia, na medida em que as redes terroristas podem
penetrar virtualmente em qualquer lugar.
A Doutrina Bush foi anunciada após os atentados do 11 de setembro. Com ela, a pauta securitária
é colocada no centro da agenda norte-americana, e tem início a chamada Guerra ao Terror. Em alguns
aspectos, pode-se arguir que o 11 de setembro foi o último suspiro do otimismo liberal da década de
1990. Se a Guerra do Golfo demonstrou a hegemonia norte-americana, os atentados de Bin-Laden
demonstraram a vulnerabilidade, sobretudo com o prolongamento das intervenções no Iraque e no
Afeganistão, em oposição à rápida ação na Guerra do Golfo.
A política externa americana teve atuação ativa na sequência dos atentados. O Brasil, em
manifestação de solidariedade, invocou o TIAR; Rússia e China demonstraram solidariedade e apoio às
ações antiterrorismo que os EUA planejavam empreender. Na ONU, é criado o Comitê Antiterrorismo (CAT)
para coordenar a prevenção e a repressão às atividades terroristas. O paradigma de contra-proliferação
nuclear, ademais, ganha força sobre a não proliferação. Internamente, foi aprovado o Patriotic Act,
relativizando algumas liberdades individuais em nome da segurança nacional.
Sob a égide da ONU e com a invocação do art. 5º da OTAN, é feita a intervenção no Afeganistão
para desmantelar o Taliban e encontrar Bin-Laden. Os EUA buscam reforçar os vínculos com seus aliados
no Oriente Médio – Arábia Saudita e Israel – e aproximar-se do Paquistão, depois de certo afastamento.
No entanto, em 2003, ainda sob o paradigma de prioridade da segurança nacional, os EUA invadem
o Iraque alegando uma legítima defesa preemptiva, alegando que o Iraque detinha tecnologia nuclear.
A invasão se dá ao arrepio do CSNU, com a interpretação contra legem de uma de suas resoluções, o
que engendra enormes críticas, sobretudo de França, Alemanha e Rússia. O Brasil também se mostrou
crítico quanto à intervenção, tanto mais porque não foram encontradas armas nucleares no país.
As consequências dos atentados terroristas e da atuação americana que se lhes seguiu foram
amplas e diversas. Em um primeiro momento, vale lembrar, com a solidariedade geral e a busca norteamericana por angariar apoio levaram a certo multilateralismo, conforme aponta a entrada da China na
OMC. Contudo, acabou prevalecendo o unilateralismo norte-americano, sobretudo depois da Guerra
ao Iraque. Malgrado o apoio inicial, a postura unilateral dos EUA acabou tendo reflexos negativos junto à
comunidade internacional, uma vez que minam o multilateralismo. O sucessor de Bush, Barack Obama,
fará esforços para redirecionar o país aos esforços multilaterais.
Evidentemente, a Doutrina Bush teve consequências ruins para bandeiras como o desarmamento.
Depois da Conferência de 2000 do TNP, na qual a Coalização da Nova Agenda propôs os 13 passos
práticos para o desarmamento, a VII Conferência, em 2005, não teve nenhum efeito prático. Efetivamente,
Saddam Hussein caiu e Bin-Laden foi morto, mas tanto Afeganistão quanto Iraque entraram em períodos
de profundas convulsões sociais – reforçando a convicção brasileira de que as intervenções militares
por si não são uma solução eficaz para a paz internacional.
A intervenção americana mostrou as limitações do multilateralismo frente à ação unilateral e ao
poder de fato. Incidentes posteriores, como o escândalo da espionagem em 2014, ainda reverberam as
consequências da postura adotada depois do 09/11. Ademais, a espionagem e o punitivismo parecem
não ter sido eficazes no combate ao novo terrorismo, uma vez que se multiplicaram as ações de grupos
não territorializados em países ocidentais.
O atentado ao World Trade Center, coração financeiro do Ocidente, foi talvez um dos eventos
mais emblemáticos e de desdobramentos mais longínquos desde o fim da Guerra Fria. Os EUA, que
capitaneavam a luta contra o terrorismo, erraram ao dispensar o multilateralismo, como denota a
persistência do terrorismo como ameaça global e o surgimento de novos grupos.