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Padrão de Resposta
A política externa de Geisel ficou conhecida como
“pragmatismo ecumênico e responsável”, na medida em que
buscou atingir o objetivo nacional do desenvolvimento com base
em princípios e práticas universalistas e realistas. A política
externa comandada pelo chanceler Azeredo da Silveira não era
revolucionária, visto que havia antecedentes em governos
anteriores. Entretanto, houve um aprofundamento do paradigma
universalista no governo Geisel, com base na situação
internacional e nas orientações do chanceler Silveira.
Pode-se afirmar que pelo menos desde o governo JK houve
um impulso para uma maior diversificação de parcerias, para além
dos parceiros tradicionais do país. Afinal, em 1959, Hugo Gouthier
liderou a “Operação Brasil-Ásia” e o país buscou aproximações com
a Europa Ocidental e o Japão. É nos governos de Jânio Quadros e
João Goulart, entretanto, que o discurso do paradigma
universalista se consolida na política externa brasileira, com o
advento da Política Externa Independente. O Brasil retoma
relações com a URSS, em 1961, abstém-se de votar pela suspensão
de Cuba da OEA, em 1962, contrariando voto dos EUA, e busca
aproximar-se dos países africanos. Entretanto, as restrições de
política interna e o apoio à Portugal impedem que a política externa
brasileira seja verdadeiramente pragmática, nesse período. Boa
parte das intenções e princípios da PEI não saem do discurso, visto
que o Brasil segue votando com Portugal.
Nos governos Costa e Silva e Médici há elementos
pragmáticos e ecumênicos, principalmente relacionados ao
multilateralismo. Assim, o Brasil defende o princípio da “segurança
econômica coletiva” na UNCTAD e não assina o Tratado de não
proliferação nuclear (TNP), em 1968. De maneira realista, Araújo
Castro define, em 1971, que as potências do sistema internacional
buscavam “congelar o poder mundial”. Em relação à África, o
chanceler de Médici, Gibson Barboza, debate com Delfim Netto,
que defende a continuação da parceria com Portugal. Gibson
Barboza realiza périplo pela África, em 1972, e visita o Quênia, no
ano seguinte. Em 1973, as bases para a aproximação com a África
estão consolidadas e o governo Geisel dará o passo final para a
aproximação.
Azeredo da Silveira tinha um pensamento realista sobre as
relações internacionais e isso será percebido na sua atuação como
chanceler de Geisel. A política de Silveira para a Argentina
exemplifica seu pensamento. O Itamaraty tinha a tradição de não
rivalizar com a Argentina, visto que se considerava que os
argentinos eram capazes de incitar o restante da América Latina
contra um suposto “subimperialismo brasileiro”. Tendo servido em
anos anteriores na Argentina, Silveira percebia que os recursos de
poder argentinos não acompanhavam mais os brasileiros, após o
forte crescimento econômico desde 1968. Assim,
pragmaticamente, Silveira impulsionará política externa em
relação à Argentina que permitirá avançar no projeto de Itaipu com
o Paraguai, inclusive com breve rompimento de relações
diplomáticas, em 1977, com a Argentina. Silveira sabia que para ser
pragmático, na década de 1970, precisava-se diversificar parcerias.
É nesse contexto que seu pensamento estimula a aproximação com
a África e o Oriente Médio.
Geisel assumiu sob os efeitos do primeiro choque do
petróleo. Dependente dessa fonte de energia e com baixa produção
nacional, o Brasil vai se aproximar do Oriente Médio já na XXIX
Assembleia Geral, em 1974, ao reconhecer a OLP como
representante dos palestinos. Na Assembleia seguinte, o Brasil
apoia a Resolução 3379 da AGNU, que considera o sionismo como
forma de racismo, contrariando o voto dos EUA. Além do petróleo,
o Brasil buscava exportar produtos militares e serviços de
engenharia para o Oriente Médio. O PNEMEM, de 1974, terá como
principais clientes países da região, como o Iraque.
Para a África, a política externa de Geisel superou os
últimos obstáculos, facilitada pela Revolução dos Cravos. Em 1974,
o Brasil reconheceu Guiné-Bissau. Em 1975, o Brasil foi o primeiro
país do mundo a reconhecer a independência da Angola. Em
seguida, fez o mesmo em relação à Moçambique, mesmo com
governos socialistas nesses países. Apesar de ser seu principal
parceiro comercial na região, o Brasil afastou-se da África do Sul.
Com o choque do petróleo, o Brasil buscava alternativas
energéticas. Nesse contexto, assina Acordo Nuclear com a
Alemanha, em 1975, após os EUA dificultarem o acesso à urânio
para o projeto da Westinghouse pelo teste nuclear indiano. Os EUA
irão pressionar o Brasil por esse acordo com a Alemanha e, após a
ascensão de Carter, pelos direitos humanos. Defendendo o
princípio da não intervenção, Silveira denunciará o Acordo Militar
de 1952.
No governo Geisel, o Brasil também amplia a cooperação
com o Japão, no âmbito da JICA, busca aproximação com a
Europa, com visitas de Geisel à Grã-Bretanha, França e Alemanha
e começa a aproximação com a China, com o reconhecimento da
RPC em 1974 e contatos econômicos em 1978. Em relação aos
países amazônicos, Silveira promove a assinatura do TCA, a fim de
afastar pressões internacionais.
A política externa de Geisel foi realista, com o objetivo
principal de promover os interesses nacionais brasileiros. Para
lograr êxito, Azeredo da Silveira consolidou o paradigma
universalista na PEB.