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Padrão de Resposta
A crescente rivalidade entre a
República Popular da China (RPC e os
Estados Unidos se desenha para ser o
grande conflito geopolítico do século
XXI. Segundo a lógica da Armadilha de
Tucídides, a célere ascensão econômica
e militar chinesa ameaçaria a posição
hegemônica dos EUA, resultando, em
última medida, em um conflito direto.
As relações sino-americanas vem
sofrendo tensionamentos crescentes
nos últimos anos, com clara mudança
de postura americana em relação à
Doutrina Nixon adotada nos 1970.
A posição americana em relação à
China era distinta no pós-Segunda
Guerra. Com a vitória dos Aliados,
retomou-se a guerra civil chinesa,
findando em 1949 com a vitória
do Partido Comunista na China
Continental e o isolamento do
Kuomitang em Taiwan. Os EUA, bem
como a ONU, não reconheceram o
governo comunista, mantendo-se
relações com Taiwan, que preservou
o assento no Conselho de Segurança.
Houve tensões entre EUA e a China
Continental no contexto da Guerra da
Coreia, em que os países apoiavam
facções opostas.
A partir dos anos 1970, iniciou-se
movimento de reconhecimento da
RPC. Adotando-se a política de Uma Só
China, países passaram a reconhecer
o governo comunista em detrimento
de Taiwan. A RPC também retoma o
assento permanente no CSNU. Nos
EUA, estabelece-se a Doutrina Nixon,
segundo a qual a aproximação com a
RPC, com a experimentação chinesa
ao modelo capitalista, poderia levar a
uma transição democrática no país.
Além disso, após o cisma sino-soviético,
a aproximação seria estratégica par
isolar a URSS no contexto da Guerra
Fria. A diplomacia do pingue-pongue
a visita de Deng Xiaoping aos EUA são
indicativos do período.
De fato, com Deng Xiaoping, a china
instituía as Quatro modernizações,
no intuito de ampliar o potencial
econômico chinês, com abertura parcial
ao molde do “socialismo com feições
chinesas”. Contudo, eventos como o
massacre da praça da Paz Celestial,
duramente criticado pelos EUA e pelo
Ocidente, mostram que o controle
político do PCC permanecia firme.
Mesmo assim, presidentes pós-Nixon
mantiveram a postura de aproximação,
na crença da transição democrática.
Durante Clinton e George W. Bush,
aceitou-se a adesão da China à OMC,
bem como o reconhecimento do
país como economia de mercado. As
economias americanas e chinesa iam
gradativamente complementandose, com o aproveitamento da mão de
obra barata chinesa para a montagem
e fornecimento de componentes
eletrônicos dos manufaturados
americanos. A postura também era
benéfica para a China, que crescia e
modernizava-se com base na doutrina
de ascensão pacífica.
A crise financeira de 2009 expôs
elementos de fragilidade na economia
americana, com efeitos negativos
espalhando-se especially nas
economias centrais. Ao mesmo
tempo, China e demais emergentes
foram menos afetados, aumentando
sua importância econômica e política
relativa, por organismos como o BRICS
e o G20 financeiro. A célere ascensão
chinesa torna o país, inclusive,
principal parceiro comercial em países
que tinham os EUA como principal
parceiro. Politicamente, dissidências
em questões como a guerra civil síria
demonstram a crescente influência
chinesa para além do seu entorno. Em
seu segundo governo, Barack Obama
adota a estratégia do Pivô Asiático, a
fim de conter a influência chinesa,
porém sem o confronto direto.
Iniciativas como o TPP buscavam
_atrair economicamente países do
entorno chinês, isolando-a. Ao mesmo
tempo, o presidente Xi Jinping banca a
iniciativa Cinturão e Rota, cujos capitais
de quase US$ 1 trilhão almejam dar
novo salto qualitativo na participação
chinesa no globo.
Com o governo Trump (2016-2020)
adota-se postura clara de inflexão
contra a RPC. Como mostra a tese
de Allison Graham, a parceria sinoamericana não pareceu modificar o
regime chinês. Pelo contrário: haveria
possivelmente ameaça à segurança
americana. É nesse sentido que
Trump classifica a China e a Rússia
como potências rivais no Relatório de
Segurança, inaugurando uma nova
era de “competição entre grandes
potências”. Alguns teóricos chegam
a tratar a rivalidade sino-americana
como uma “nova Guerra Fria”. De
fato, há paralelos: trata-se de embate
entre uma nação capitalista e uma
comunista; ambas são nuclearmente
armadas; há diferenças culturais
relevantes entre Ocidente e Oriente.
Contudo, muitos fatores tornam a
conjuntura atual especialmente
delicada: apesar de comunista a
China é amplamente integrada ao
mercado global, sendo, inclusive,
o principal parceiro econômico
americano, o que nunca foi o caso
da URSS. O arsenal nuclear chinês,
ademais, é efetivamente muito
menor que o americano e o russo,
o que faz a China se recusar a ser
incluída na revisão de acordos de
desarmamento, como o de mísseis
intermediários. A China tampouco
lidera um bloco antagonista aos
EUA: sua política externa baseia-se
na promoção do multilateralismo
e em princípios de não ingerência
e respeito à soberania, adotandose postura de nova convivência
harmônica. Apesar disso, a China
sob Xi tem adotado postura de
aumento do seu poderio militar, em
especial em seu entorno no Mar do
Sul da China, a fim de garantir sua
soberania sobre a chamada “linha
dos nove traços”, algo que não é
reconhecido mundialmente. Além
disso, a China também expandiu
seu poder econômico na América
Latina e África, regiões de habitual
influência americana.
Com base nessa configuração de
ameaça, Trump adotou várias posturas
reativas e de enfrentamento à China.
Na economia, iniciou o processo de
“decoupling”, orientando empresas
a reduzirem sua participação na
China e retornar suas estruturas
para o território americano. Adotou
imposições tarifárias, iniciando uma
guerra comercial com efeitos em todo
mundo. E acusou a China de violações
generalizadas de direitos humanos,
em especial no Tibet, em Hong Kong
e em Xijiang, onde o secretário de
Estado Mike Pompeo classificou as
políticas chinesas como genocidas.
Em sua chegada ao governo, o
democrata Joe Biden não adotou
o mesmo tom de enfrentamento
direto, mas manteve as políticas de
isolamento econômico e político. Além
disso, Joe Biden vale-se do sistema
de alianças americanas para conter a
China no Pacífico, há estratégias como
o Quad, o “diamante democrático” de
contenção com EUA, Índia, Japão e
Austrália; e a Aliança AUKUS, recémanunciada entre EUA, Reino Unido e
Austrália, prevendo o fornecimento
de submarinos nucleares americanos
para a Austrália, no lugar dos franceses.
Na União Europeia, os EUA lograram
convencer diversos países a não
adotar a tecnologia 5G chinesa, sob
acusação de risco de espionagem. Os
EUA também acusam os chineses de
roubar propriedade intelectual em
seus programas tecnológicos.
Com o crescente afastamento
entre EUA e RPC, cresce o risco de
que a “Armadilha de Tucídides” se
torne uma profecia autorrealizável.
Sem mecanismos do diálogo entre
as duas potências, como existiam na
Guerra Fria (o “telefone vermelho”),
riscos menores podem escalonar
rapidamente. Além disso, com a
postura americana de isolamento
da China, cresce sua aproximação da
Rússia, ameaçando a criação de um
bloco antagônico sino-russo. O recente
conflito na Ucrânia, no qual a China
apoia a Rússia tacitamente, aumenta
os temores de que Pequim realize
incursão militar de reanexação de
Taiwan. Esse é atualmente o principal
ponto de tensão entre os dois países,
com os EUA fornecendo armamento
à ilha e mantendo contatos próximos
com a presidente taiwanesa, o que gera
reações de Pequim. Os EUA mantêm
postura dúbia se reagiriam a uma
invasão de Taiwan, apesar de haver lei
americana sobre o tema. Ainda não é
claro se haverá um conflito direto entre
EUA e China, mas a atual conjuntura de
tensões prejudica a segurança global,
afetando o bom funcionamento do
sistema internacional. O Brasil, como
país que tem parceria estratégia com
ambos, deve exercer cautela com
os dois países, de modo a garantir a
preservação dos interesses brasileiros
a preservação da paz e segurança.